O presente do Papai (Ma)Noel

Poema de Manoel de Barros, publicado fora dos livros, reaparece nas redes como gesto de delicadeza em tempos de excesso. Mais que celebração natalina, o texto propõe um desvio do olhar: o avô ganha “olhar de pássaro” para reinventar um mundo cansado. A poesia sugere dar primavera aos vermes, desenhar a voz nas pedras e ouvir mais as crianças que a gramática. Manoel de Barros, que fez da atenção ao ínfimo um projeto estético e ético, reafirma aqui sua crença de que o mundo ainda pode ser renovado pelo simples e pela imaginação.

Poema de Natal — Manoel de Barros

Meu avô hoje ganhou de presente um olhar de pássaro
Acho que ele vai usar esse olhar para fazer suas artes
O mundo para ele anda muito cansado
Ele quer mudar o jeito das coisas do mundo
Por exemplo ele vai dar primavera aos vermes
O homem não vai mais fabricar armas de fogo
Só vai ter mesmo rio, árvores, o sol, bichos, pedras
Ele vai desenhar a sua voz nas pedras
Os grilos vão se abrir no meio da noite com enormes lírios
Todo mundo vai gostar mesmo de obedecer as falas das crianças
Do que as ordens gramaticais
Os sapos vão andar de bicicleta
Depois vamos assistir ao nascimento de Deus
Será Natal
E todos vamos adotar as boas falas do filho de Deus
Amar o próximo como a nós mesmos
Então o mundo será renovado.

*Bosco Martins, jornalista e escritor

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