ASSÉDIO ELEITORAL: MPT RECEBE 530 DENÚNCIAS EM DOIS DIAS, E LISTAS DE BOICOTE ACENDEM ALERTA EM MATO GROSSO DO SUL

Após a vitória de Lula, ameaças de demissão, perseguição política e exposição de comerciantes nas redes sociais ampliam a tensão. No MS, denúncias chegaram a 43 até 27 de outubro, e municípios registram circulação de listas que incentivam boicotes.

A disputa presidencial de 2026 terminou nas urnas, mas a polarização política continua produzindo consequências no ambiente de trabalho, no comércio e nas relações sociais. O Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 530 novas denúncias de assédio eleitoral em aproximadamente 42 horas após a votação de domingo, 25 de outubro. Ao mesmo tempo, listas com nomes de empresas, comerciantes e trabalhadores passaram a circular nas redes sociais e em aplicativos de mensagens, acompanhadas de pedidos de boicote e de incentivos à demissão de pessoas identificadas com o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O fenômeno também chegou a Mato Grosso do Sul, onde registros de denúncias cresceram ao longo de outubro e relatos de listas de boicote foram identificados em municípios do interior. A situação levanta preocupações sobre a liberdade política, a proteção dos trabalhadores e os limites legais das manifestações nas redes sociais.

Os números mostram que o conflito ultrapassou o debate eleitoral e passou a atingir diretamente o cotidiano de trabalhadores, empresários e consumidores.

Mato Grosso do Sul: denúncias cresceram 136,4% até 22 de outubro

Em Mato Grosso do Sul, os dados oficiais divulgados pelo Ministério Público do Trabalho mostram uma evolução expressiva das denúncias durante o calendário eleitoral. De acordo com o MPT-MS, o Estado contabilizava 11 denúncias até o primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Em 22 de outubro, o total havia chegado a 29, um aumento de 136,4%. No dia 26, a instituição informou que já eram 35 registros.

Uma reportagem publicada em 28 de outubro pelo portal Atualiza.MS, por sua vez, informou que o total estadual havia alcançado 43 denúncias até o dia 27. A sequência dos números revela a aceleração dos registros na fase final da eleição e a continuidade dos relatos depois da votação.

É importante observar que os números de 2026 são parciais e foram divulgados em datas diferentes. O total de 43 registros até 27 de outubro é de uma publicação jornalística; não deve ser apresentado como um balanço oficial atualizado do MPT-MS sem confirmação adicional da instituição. Ainda assim, a evolução de 11 para 29 denúncias entre o primeiro turno e 22 de outubro, seguida pelos balanços de 35 e 43 registros, indica que o problema exige atenção das autoridades e da sociedade.

Listas de boicote atingem comerciantes no interior

Além das denúncias relacionadas às relações de trabalho, a circulação de listas de boicote acrescentou uma nova dimensão à disputa política em Mato Grosso do Sul.

Reportagem publicada em 28 de outubro pelo portal Atualiza.MS apontou registros dessa prática em Jardim, Camapuã e Batayporã. Em Jardim, segundo a publicação, circulou uma relação com cerca de 20 nomes de empresários e trabalhadores associados ao Partido dos Trabalhadores, acompanhada de incentivos para que consumidores deixassem de comprar ou contratar serviços dessas pessoas.

Em Três Lagoas, a Associação dos Jovens Empresários (AJE-TL) divulgou uma manifestação de repúdio à exposição de empresas por divergências ideológicas.

A preocupação é que a discordância política deixe de ser uma manifestação individual e se transforme em uma campanha de intimidação econômica, capaz de prejudicar estabelecimentos, trabalhadores e famílias que dependem de sua atividade profissional.

É necessário distinguir, porém, uma crítica legítima a uma empresa de uma campanha de perseguição. Consumidores podem escolher livremente onde comprar e manifestar suas opiniões, mas ameaças, acusações falsas, discriminação e ações coordenadas que causem danos ilícitos podem gerar responsabilização, conforme as circunstâncias e as provas de cada caso.

A divulgação de nomes em listas não comprova, por si só, que todas as pessoas citadas tenham sofrido um ilícito. O conteúdo publicado, a finalidade da exposição, as ameaças eventualmente associadas e os prejuízos causados precisam ser examinados individualmente.

DOURADOS NO CENTRO DA POLÊMICA: LISTAS DE BOICOTE CIRCULAM EM GRUPOS DE WHATSAPP

Mensagens associam estabelecimentos comerciais ao PT, incentivam compras por preferência ideológica e incluem conteúdo discriminatório contra nordestinos.

Dourados, a segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul, entrou no centro da controvérsia após a circulação de listas de comerciantes supostamente ligados à esquerda. O caso ganhou repercussão estadual depois que mensagens compartilhadas em grupos de WhatsApp passaram a incentivar consumidores a dar preferência a empresas identificadas com a direita e a evitar estabelecimentos associados ao Partido dos Trabalhadores.

Segundo reportagem publicada pelo Campo Grande News em 28 de outubro, capturas de tela encaminhadas ao jornal mostram participantes de um grupo de apoio a Flávio Bolsonaro compartilhando uma relação de estabelecimentos comerciais de Dourados. Uma das mensagens defendia que pessoas de direita comprassem somente de empresários que compartilhassem a mesma orientação política. Outra incentivava a atualização da lista.

O material também continha mensagens discriminatórias contra nordestinos, incluindo um apelo para que não fossem contratados e uma manifestação que incentivava agressões contra vendedores ambulantes de redes. Essas mensagens ampliam a gravidade do episódio, pois ultrapassam a disputa partidária e atingem pessoas em razão de sua origem regional.

É importante ressaltar que a inclusão de um comércio em uma dessas listas não comprova que seu proprietário seja filiado a um partido ou tenha determinada preferência política. Trata-se de uma associação feita por quem produziu ou compartilhou o material.

Um dos empresários citados relatou preocupação com possíveis prejuízos financeiros e questionou a legitimidade de colocar o sustento de trabalhadores em risco por causa de divergências políticas. A preocupação é especialmente relevante para pequenos negócios, que dependem da confiança dos clientes e do movimento diário para manter suas atividades.

O episódio de Bela Barros também repercute

Outro caso relacionado à reação política após a votação envolveu Bela Barros, ex-deputada estadual e ex-vereadora de Dourados. Em comentário publicado nas redes sociais, ela afirmou que um funcionário havia sido demitido e que outros oito seriam dispensados, utilizando a expressão “em nome de Jesus”.

Depois da repercussão, Bela publicou uma retratação, pediu desculpas e afirmou que não tinha autoridade para contratar ou demitir nos restaurantes mencionados. Também negou que as dispensas anunciadas tivessem ocorrido.

Até o momento, as informações divulgadas não comprovam que tenham ocorrido demissões por motivação política nos estabelecimentos citados. Por isso, o episódio deve ser tratado como uma declaração pública seguida de retratação, e não como prova definitiva de demissões efetivadas.

O caso, contudo, reforça a importância de investigar eventuais ameaças de retaliação profissional e de distinguir declarações nas redes sociais de fatos efetivamente comprovados.

Por Lupércio Marques – MTB 1412 – Jornalista filiado à ABI (Associação Brasileira de Imprensa)

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